DEVE E O HAVER: AS FINANÇAS PUBLICAS E PRIVADAS NA HISTORIA DA MADEIRA
Projecto de investigação em curso no CEHA com a coordenação de Alberto Vieira
DEFINIÇÃO
No discurso histórico é a
ossatura fundamental que alicerça a autonomia político-administrativa. Tudo
isto porque a história local faz apelo à valorização do passado histórico
regional e permite reforçar a unidade definida pelo espaço geográfico. Uma
região sem História dificilmente poderá fazer valer as suas legítimas
aspirações autonómicas. Tão pouco uma classe política, alheada ou desconhecedora
do passado histórico terá possibilidades de fazer passar e vingar o seu
discurso político.
A História faz parte da
essência do discurso político autonómico e é nela onde mais se espelha a
identidade local. Conhecer e valorizar a História regional é uma atitude
necessária ao nascimento e fortalecimento da autonomia. O apelo à História
faz-se, não só pela busca das condições ancestrais que conduziram à
materialização do processo autonómico, mas também pelos combates que o mesmo
propiciou. Para os actuais desafios do processo autonómico o conhecimento das
diversas conjunturas de combate, as opções e justificações que geram são
imprescindíveis. Por outro lado a História deve ser entendida também como a
homenagem aos que nos precederam neste combate e onde se encontram motivos e
alento para novos embates.
O debate
político-institucional da autonomia ao longo do século XX está em relação
directa com os problemas financeiros. As primeiras vozes na luta pela autonomia
política insular partiram da constatação da realidade financeira pautada pela
sangria da riqueza arrecadada. O subdesenvolvimento regional, em contraste com
as cada vez maiores receitas conduzidas à metrópole, está na origem do debate e
fervor autonomista. A ideia de sangria financeira é patente no debate que teve
lugar nas páginas dos jornais e repercutiu-se na voz dos deputados da Madeira à
Assembleia Nacional.
E, não será por acaso que
uma das questões mais usuais na voz dos detractores das autonomias insulares
seja o dedo acusador daquilo que consideram uma inversão de marcha do processo.
Afirma-se de forma despicienda que as despesas foram alimentadas pelas receitas
do continente português, ignorando-se a receita aquilo que a região deu, dispõe
e continuará a gerar.
Ao debate da actual conjuntura
deverá juntar-se, sob pena de falsear a verdade do relacionamento financeiro da
região com a metrópole, a perspectiva histórica. O passado histórico reafirma
que ao longo dos últimos cinco séculos os madeirenses deram todo o esforço de
trabalho e riqueza para a valorização do espaço nacional. Isto demonstra que o
arquipélago foi compulsivamente solidário. Uma visão histórica do deve e haver
das contas e relacionamento financeiro entre a Madeira e o reino evidência que
o passado foi pautado por uma forte participação financeira da ilha nas
finanças do Estado.
Foram os nossos avós que
financiaram as exorbitâncias da Coroa, as viagens a Índia e as elevadas
despesas de manutenção e defesa das praças africanas. A grande aventura das
descobertas dos séculos XV e XVI seria possível sem a existência de espaços,
como a Madeira, geradores de elevados excedentes? E perante esta posição
solidária da Madeira do passado legítimo seria de esperar por idêntica atitude
da mãe-pátria no presente para a recuperação do subdesenvolvimento a que nos
sujeitaram. Em certa medida poderemos afirmar que hoje, somos nós que
recorremos ao velho continente a reivindicar a cobrança dos
"empréstimos", mas no passado a coroa recorria as receitas
madeirenses para colmatar o incessante deficit das finanças públicas.
Na História da Madeira persistem
ainda importantes lacunas que impossibilitam um conhecimento abrangente. A História
Económica, encarada nos múltiplos aspectos, é ainda um campo em aberto. As
análises que existem são parcelares e circunstanciais não havendo qualquer abordagem
estrutural que possa estabelecer o rumo da economia madeirense e as pertinentes
implicações no curso da História. Ainda, no domínio da História Económica, os
problemas relacionados com a fiscalidade e finanças públicas não têm merecido
qualquer atenção por parte dos estudiosos, sendo um dos muitos campos em aberto
na História da ilha.
Tendo em conta a importância que
assume este último aspecto para a definição do rumo da História Económica Madeirense
e as suas inevitáveis implicações políticas, bastante evidentes a partir do
século XIX no combate pela autonomia, parece-nos evidente a pertinência da sua
abordagem.
O interesse que a abordagem do
tema revela, quer para a comunidade científica, quer para a política financeira
actual, levou-nos a optar por uma estruturação do projecto de modo a atender
estas duas solicitações, materializada, depois, na apresentação formal dos
resultados do projecto, sob a forma de livro.
OBJECTIVOS
O estudo em causa apresenta-se
complexo tendo em conta a inexistência de qualquer tipo de abordagem e a
vastidão. Assim, para além da necessária definição das instituições de suporte,
é necessário ter em conta a evolução das políticas financeiras e fiscalidade,
que têm no século XIX, com o Liberalismo, uma reforma radical, que desemboca na
estrutura actual. A par disso torna-se necessário, para o período
prè-estatístico reconstituir o movimento da receita e despesa a partir de dados
avulsos, situação que só terá informação satisfatória e ordenada a partir da
segunda metade do século XIX.
1. AS INSTITUIÇÕES. O
estudo do suporte institucional é fundamental e deverá ter-se em conta a sua
evolução e adaptação às conjunturas económicas, donde emanam. No século XV a
Madeira foi um modelo dessa realidade
que veio a corporizar as colónias.
2. REFORMAS. As reformas
fiscais adequam a fiscalidade às conjunturas e introduzem mudanças radicais na
estruturara institucional. As mais evidentes alterações aconteceram na segunda
metade do século XIX e nos primeiros anos do Estado Novo.
3. O DEVE E O HAVER.
Análise exaustiva do movimento da receita e despesa, a partir do momento que
seja possível reconstituí-la ou de que temos dados estatísticos.
4. POLÍTICA E FINANÇAS. A
política intervêm decisivamente nas finanças, não só através das reformas e dos
planos, como foi o caso dos Planos de Fomento (1953-1973). Ao inverso as
finanças também definem uma estratégica de combate político regionalista, que
deu os primeiros passos no século XIX e princípios do presente e que agora
adquire uma dimensão real.
ESTADO ACTUAL DO PROJECTO
Desde 1996 procedemos de forma isolada ao
levantamento de alguma informação, limitada apenas aos orçamentos gerais do
Estado, de que resultou a memória que serviu de base à apresentação feita no
Congresso do PSD-Madeira em 24 de Março de 2000. Alguns dados foram ainda
usados na comunicação apresentada ao Seminário sobre “História e Autonomia das
Ilhas”, que decorreu em Setembro de 2001 no Funchal.
Nesta primeira fase procedeu-se
apenas ao levantamento dos dados estatísticos referentes aos tributos e
impostos e às despesas consignadas nos orçamentos do Estado, a partir de 1836,
ao arquipélago da Madeira.
O trabalho só poderá ser
concluído com a recolha exaustiva de toda a informação referente aos tributos e
impostos, acompanhada de uma análise de ordem económica e financeira. A
documentação disponível, que se reporta aos departamentos da Fazenda/Finanças,
é vasta sendo a recolha de dados morosa. Acresce ainda a necessidade de
consulta da Conta Geral do Estado, dos Diários do Governo e da Assembleia
Nacional(…). A partir de 1901 deverá dar-se especial atenção ao papel da Junta
Geral.
mais informações sobre o projecto em
dossier completo